Google pode usar o Gmail e o Fotos nos anúncios: o que muda em Portugal para si e para quem anuncia
A Google admite usar dados do Gmail e do Fotos nos anúncios com IA. Em Portugal, a função não está disponível. O que muda para quem anuncia.

A Google alterou a sua política de privacidade a 16 de outubro de 2026 e abriu uma exceção a uma promessa antiga: a de não usar o conteúdo do Gmail, do Google Drive e do Google Fotos para personalizar anúncios. A mudança foi detetada pelo Android Authority e noticiada pela The Verge e pela Ars Technica a 23 de outubro. Em Portugal, o TugaTech e o TecheNet escreveram sobre o tema a 25 de outubro.
A notícia levanta duas perguntas a quem gere uma empresa. A primeira é pessoal: o meu email pode servir para me mostrarem publicidade? A segunda é de negócio: se anuncio no Google, passo a chegar aos clientes através do que eles têm no Gmail? A resposta curta, para quem está em Portugal, é que hoje quase nada muda. Explicamos porquê e o que convém fazer.
O que mudou na política de privacidade
Até agora, a política de privacidade da Google dizia, sem mais, que a empresa não mostrava anúncios personalizados com base no conteúdo do Drive, do Gmail ou do Fotos. A frase passou a ter uma condição. A Google continua a não o fazer, "a menos que opte por disponibilizar os dados destes serviços a outros serviços Google que suportam anúncios personalizados".
A política dá um exemplo concreto. O utilizador pode autorizar serviços como a Pesquisa ou as aplicações Gemini a aceder a dados de outros serviços, como o Google Fotos, o Gmail e o Drive, para ter uma experiência mais personalizada. Nesse caso, diz o texto, "a Pesquisa pode processar alguns dos dados a que permite o acesso para personalizar conteúdo, incluindo anúncios".
A porta de entrada é a Personal Intelligence, a funcionalidade que a Google lançou no início de 2026 para ligar o Gmail, o Fotos, a Pesquisa e o YouTube ao Gemini e ao Modo IA da Pesquisa. O exemplo dado pelo TugaTech ajuda a perceber o efeito: se pedir restaurantes perto do sítio onde vai ficar, a IA pode tirar o nome do hotel de uma reserva no email e mostrar sugestões acompanhadas de resultados patrocinados.
O que a Google garante
Numa declaração enviada à Ars Technica, a Google disse que ligar as aplicações "é totalmente opcional" e que os anúncios "não serão baseados diretamente na caixa de entrada do Gmail ou na biblioteca do Fotos". Acrescentou que continuarão a depender da pesquisa, do contexto da resposta e dos interesses da pessoa.
A política mantém três limites que interessam a quem anuncia:
- Não há anúncios personalizados com base em categorias sensíveis, como origem racial, religião, orientação sexual ou saúde.
- A Google não partilha com os anunciantes informação que identifique a pessoa, como o nome ou o email, salvo se for o próprio utilizador a pedi-lo, por exemplo ao tocar num botão para ligar para a empresa.
- Os anunciantes não têm acesso ao conteúdo do Gmail, do Drive ou do Fotos. Quem processa os dados e escolhe o anúncio é a própria Google.
A Ars Technica faz uma leitura mais crítica: se a pessoa usa o Modo IA com a Personal Intelligence ligada, resumos dos seus dados podem entrar nas respostas, e essas respostas contam para escolher os anúncios.
Em Portugal, a funcionalidade nem sequer existe
É aqui que a notícia muda de figura para quem vive e trabalha em Portugal. Segundo a página oficial da Personal Intelligence, a funcionalidade está em fase beta para utilizadores elegíveis em todo o mundo, exceto no Espaço Económico Europeu, na Suíça, no Reino Unido e na Nigéria. Portugal faz parte do Espaço Económico Europeu. A mesma página indica que só está disponível para maiores de 18 anos com contas Google pessoais, e não para contas Workspace de empresas, ensino ou grandes organizações.
Ou seja, quem usa o Gmail em Portugal não tem, para já, forma de ligar o email ao Modo IA através da Personal Intelligence. E o email da empresa num Google Workspace fica de fora, mesmo nos países onde a funcionalidade existe.
Há um segundo filtro. A Google Ads explica, na sua página de ajuda sobre anúncios e AI Overviews, que os anúncios dentro dos resumos gerados por IA só aparecem em inglês, em 12 países: Austrália, Canadá, Índia, Indonésia, Quénia, Malásia, Nova Zelândia, Nigéria, Paquistão, Filipinas, Singapura e Estados Unidos. Nos restantes mercados, incluindo Portugal, os anúncios podem aparecer acima ou abaixo do resumo, mas não lá dentro. Os novos formatos de anúncios no próprio Modo IA continuam em teste nos Estados Unidos, como relatou o PPC Land.
O que isto significa para quem anuncia
Para uma PME portuguesa que investe em Google Ads, a alteração não traz uma nova opção de segmentação. Não há nenhuma definição na conta para chegar a quem tem "reservas de hotel no Gmail", e nem nos Estados Unidos os anunciantes veem esses dados. O efeito, onde existe, acontece dentro da Google, que usa mais contexto para decidir que anúncio mostra numa resposta da IA.
A tendência, porém, é clara. A Google quer que a publicidade acompanhe a pesquisa com IA, e a chegada do Modo IA a Portugal, a 7 de outubro de 2025, mostra que as funcionalidades acabam por atravessar o Atlântico, ainda que mais tarde e com as regras europeias pelo meio. Convém preparar a empresa para esse cenário sem depender de dados que não controla:
- Cuide dos seus próprios dados. A lista de clientes, os contactos que chegam pelo site e as conversões medidas corretamente valem mais do que qualquer segmentação nova. Confirme que o seu site tem o Consent Mode v2 configurado para o Google Ads.
- Escreva para as respostas da IA. Em Portugal ainda não pode pagar para aparecer dentro do Modo IA, mas pode lá chegar com conteúdo. Mostramos como em como aparecer nas respostas do ChatGPT e do Modo IA da Google.
- Não ponha todo o orçamento num só canal. Se está a decidir onde investir, leia Google Ads ou SEO: onde investir primeiro.
E para si, enquanto utilizador
Se viaja, usa uma conta pessoal noutro país ou quer apenas rever as suas definições, a Ars Technica indica o caminho para desligar as aplicações ligadas: na conta Google, em Dados e privacidade, abra as definições de personalização, entre na gestão das recomendações personalizadas dos serviços de pesquisa e desligue o Workspace e o Fotos em Aplicações de conteúdo ligadas. Também pode desligar os anúncios personalizados em O meu centro de anúncios.
O TugaTech deixa um aviso: desligar a ligação só impede a leitura de conteúdos daí para a frente. O que a IA já tiver analisado fica no histórico dos serviços de pesquisa, mesmo que apague a fotografia ou a mensagem original.
Na empresa, a regra prática é simples: o email de trabalho deve estar numa conta profissional, separada da pessoal. Além de ficar fora destas funcionalidades, é mais fácil de proteger e de gerir quando alguém sai da equipa.
Em resumo
A Google passou a admitir, por escrito, que o conteúdo do Gmail, do Drive e do Fotos pode influenciar anúncios quando o utilizador o liga às funcionalidades de IA. Em Portugal, essa ligação ainda não está disponível e os anúncios dentro das respostas da IA também não, por isso nada muda hoje nas suas campanhas. O que pode fazer já é preparar o terreno: medir bem, tratar os dados dos seus clientes com cuidado e ter um site que a IA consiga ler e citar.
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