A Brave vende o índice de pesquisa às empresas de IA: o que o seu site precisa de saber
A Brave vende o seu índice de pesquisa a empresas de IA. Sem um nome no rastreador, bloquear a Brave sem sair da Google é praticamente impossível.

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A 2 de novembro de 2026, o New York Times avançou com um processo judicial contra a Brave Software, a empresa do navegador Brave e do motor de pesquisa Brave Search. Segundo o The Verge e a Ars Technica, o jornal acusa a tecnológica de ter copiado conteúdos protegidos, de os ter usado nos seus próprios produtos e de ter vendido o acesso ao seu índice de pesquisa a empresas de inteligência artificial. No mesmo dia, o New York Daily News, o Chicago Tribune e o Orlando Sentinel apresentaram uma ação separada, com acusações semelhantes.
Isto não diz respeito apenas a jornais norte-americanos. Se o seu site está aberto ao Google, há uma probabilidade elevada de também estar no índice que a Brave comercializa. A 8 de novembro, o TugaTech destacou o ponto essencial para quem gere um site em Portugal: o rastreador da Brave não se identifica com um nome próprio, e a empresa indica a etiqueta noindex como forma de sair do índice — o que também tira a página da Google. As acusações ainda não foram julgadas. Segundo o The Verge e a Ars Technica, a Brave não tinha respondido de imediato no dia em que as ações foram noticiadas.
O que a Brave vende, nas suas próprias palavras
Na página de IA da empresa, a Brave apresenta a Search API como forma de alimentar outras inteligências artificiais com o seu índice. Escreve que esse índice tem mais de 30 mil milhões de páginas, com milhões de novas páginas indexadas todos os dias, e lista entre os usos o contexto para modelos de linguagem, o acesso de chatbots e agentes a dados em tempo real e o treino de modelos. A mesma página afirma que a Brave Search responde a mais de 50 milhões de consultas de utilizadores por dia e que cerca de um terço dispara um resumo gerado por IA, com citação das fontes.
Na página da Brave Search API, a empresa explica que os resultados clássicos são para pessoas e que o ponto de acesso «LLM Context» é para máquinas: devolve o conteúdo que o modelo precisa para responder, já extraído, ordenado e compactado. O cliente da API não precisa de voltar ao seu site para ler a página: recebe excertos prontos a usar na resposta.
A 6 de novembro, a Search Engine Journal explicou a diferença económica. Num motor de pesquisa tradicional, alguém procura, vê o seu resultado e, se clicar, chega ao seu site. Quando o índice é vendido a uma empresa de IA, essa empresa usa o conteúdo para redigir uma resposta. Se essa resposta envia ou não o utilizador de volta à página original deixa de ser uma decisão sua.
O que dizem as queixas — e o que ainda não está provado
É importante separar o que a Brave anuncia do que os jornais alegam em tribunal. De acordo com a Ars Technica, a queixa do New York Times aponta para o próprio site da Brave, onde a empresa apresentava a Search API como usada por «alguns dos maiores nomes da IA, incluindo a Cohere, a Mistral, a Perplexity e o You.com». A mesma cobertura, e a do The Verge, indica que as queixas identificam a Anthropic, a Perplexity, a Mistral, a xAI e a Cohere como empresas abastecidas por este sistema. Nenhuma destas cinco é ré nestes processos.
Os editores alegam que a Brave nunca pediu autorização para copiar o material nem os compensou, e que tomou medidas que os impedem de bloquear o acesso aos respetivos sites.
Graham James, porta-voz do New York Times, disse ao The Verge que a Brave ignorou pedidos repetidos para cessar a conduta que o jornal considera ilegal. Jesse Dwyer, da Perplexity — que não é ré neste caso — falou em desinformação na queixa, sem identificar inexatidões concretas, segundo o The Verge e a Ars Technica.
Um rastreador sem nome: o robots.txt não chega
O ficheiro robots.txt só funciona quando o robô se apresenta com um nome, o chamado user agent. Foi por isso que a Google, a OpenAI, a Microsoft e a Anthropic chegaram a uma regra comum no robots.txt contra o treino de IA: com um nome público, o dono do site pode recusar o treino sem desaparecer da pesquisa. A Brave fica de fora deste mecanismo.
Na página de ajuda do rastreador, a empresa admite que o robô «não anuncia um user agent diferenciado», para evitar ser barrado por sites que só autorizam a Google. Afirma que, se uma página não puder ser lida pelo Googlebot, o robô da Brave também não a lê. A mesma página é explícita: o robots.txt «não é usado para impedir que uma página seja indexada». Para a retirar do índice, a Brave indica a diretiva noindex e precisa de voltar a visitar a página para aplicar a alteração.
Na prática, não existe uma linha que deixe entrar o Google e fique de fora da Brave. Ou aceita os dois, ou usa o noindex e sai também da pesquisa da Google. Para a maior parte das empresas portuguesas, sair da Google para escapar a este índice seria um mau negócio: o Google continua a ser a principal fonte de visitas, como explicámos a propósito da afirmação da OpenAI de que o ChatGPT já faria 20% das pesquisas do Google.
A Search Engine Journal descreveu um teste a 3 de novembro no domínio do autor: uma pesquisa site:nohacks.co no motor da Brave mostrou 16 páginas na primeira página de resultados. O robots.txt desse site bloqueava robôs da Meta e da ByteDance, mas não havia nenhuma linha possível para a Brave.
O que a sua empresa deve fazer agora
Não é preciso alterar o site à pressa nem inventar bloqueios que a Brave diz não respeitar por nome. Há passos úteis e verificáveis:
- Confirme se o seu domínio aparece no índice. A Search Engine Journal sugere abrir search.brave.com e procurar
site:seguido do seu domínio. O que surgir está no índice disponibilizado através da API. - Não use
noindexsó para sair da Brave. Essa etiqueta também pede à Google que deixe de mostrar a página. Reserve-a para conteúdos que realmente não devem ser pesquisáveis. - Reveja o
robots.txtcom realismo. A regra comum para recusar o treino na Google, na OpenAI e na Microsoft continua a fazer sentido, mas não cobre este rastreador. Teste as alterações na Search Console, como recomendamos na checklist de SEO técnico. - Escreva páginas que um assistente não deturpe com facilidade. Serviços, zona onde trabalha, contactos e horários devem estar em texto claro e atualizado. Se a sua empresa for citada numa resposta de IA, convém que os factos estejam corretos na fonte. Temos um guia sobre como aparecer nas respostas do ChatGPT e do Modo IA.
- Acompanhe o processo sem tratar as acusações como sentença. Um tribunal norte-americano vai decidir se a Brave pode continuar a comercializar o índice nestes termos. A decisão não se aplica automaticamente a todos os sites, mas vai influenciar o debate sobre o controlo das páginas.
Enquanto o processo decorre, a Brave continua a descrever um índice com mais de 30 mil milhões de páginas e uma API pensada para entregar excertos já prontos a modelos de linguagem. Para quem tem um site de empresa em Portugal, a lição não é desaparecer da pesquisa: é perceber que o robots.txt já não controla todos os destinos do conteúdo, e que um texto claro e tecnicamente acessível continua a ser a melhor defesa — no Google e nas respostas de IA.
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