Alertas de segurança verdadeiros da Google usados em burlas: como proteger o email da sua empresa
Burlões usam alertas reais da Google, com remetente verdadeiro, para roubar contas. Saiba como reconhecer o esquema e proteger o email da empresa.

Neste artigo · 8 secções
Recebe um email com o assunto «Alerta de segurança», enviado por no-reply@accounts.google.com. Diz que foi criada uma palavra-passe de app e que a sua conta pode estar comprometida. O Gmail não mostra nenhum aviso, o remetente é verdadeiro e o email passa em todas as verificações técnicas. E, mesmo assim, é uma burla.
Esta técnica circula há várias semanas e voltou a ganhar destaque no X a 31 de outubro de 2026, com relatos de criadores de conteúdo que ficaram sem acesso a contas Google e a canais do YouTube. Neste artigo explicamos como funciona, porque engana até quem conhece os sinais clássicos de phishing e o que a sua empresa deve fazer para proteger o email e as contas Google da equipa.
Como funciona a burla
O esquema foi descrito em pormenor pelo Centro Nacional de Cibersegurança da Suíça (NCSC), a 22 de setembro de 2026, e por um investigador da Foregenix, a 12 de outubro. Os passos são simples:
- O burlão cria uma conta Google descartável.
- Indica o email da vítima como endereço ou contacto de recuperação dessa conta. A Google envia logo à vítima uma notificação verdadeira, o que, segundo a Foregenix, serve para «preparar» o terreno.
- Ativa a verificação em dois passos na conta descartável, porque só assim pode criar palavras-passe de app.
- Cria uma palavra-passe de app e, no campo do nome, em vez de algo como «Portátil», escreve a mensagem da burla: um link, um número de telefone, um falso número de processo.
- A Google envia automaticamente um «Alerta de segurança» real à vítima, com esse texto copiado tal e qual para dentro do modelo oficial.
O burlão nunca toca na conta da vítima para enviar a mensagem. Tudo acontece na conta dele. É por isso que, como sublinha a Foregenix, o email passa nas verificações SPF, DKIM e DMARC e chega à caixa de entrada, e não ao spam.
Três variantes já documentadas
O telefonema de «suporte». No caso relatado pelo NCSC suíço, o nome da palavra-passe de app imitava um processo de apoio («Case ID: 834333»). Pouco depois de o email chegar, a vítima recebeu uma chamada de alguém que dizia ser do suporte da Google, com um número suíço falsificado no ecrã. O burlão levou a vítima para uma página de login falsa alojada em sites.google.com.
A fatura falsa. A Universidade do Michigan registou, a 6 de outubro, um alerta verdadeiro da Google com uma falsa fatura de 399 dólares da McAfee e um número de telefone. Os links legítimos do email levavam apenas ao painel da própria conta, sem nada de anormal, para que a única «saída» fosse ligar para o número dos burlões.
O link para o Google Sites. O blogue da MEGA analisou o caso de um utilizador que recebeu, a 1 de outubro, um alerta que pedia para rever a palavra-passe numa página em sites.google.com. A página tinha uma falsa verificação «Não sou um robô» e um formulário de login. O gestor de palavras-passe do utilizador até ofereceu preencher os dados, porque ele tinha um login guardado para esse domínio da Google. A publicação dele no X passou os 5 milhões de visualizações em poucos dias.
Porque é que os conselhos habituais não chegam
Os conselhos clássicos contra o phishing mandam verificar o remetente, passar o rato por cima do link e procurar erros de ortografia. Neste caso, todos falham:
- O remetente é verdadeiro. O email vem mesmo da Google.
- O domínio parece verdadeiro. O
sites.google.compertence à Google, mas qualquer pessoa com uma conta Google pode publicar páginas lá. - O texto está limpo. A MEGA lembra que o FBI e a Europol já alertaram para o uso de IA generativa para escrever mensagens de burla sem erros.
- Os filtros deixam passar. Com SPF, DKIM e DMARC válidos, não há razão técnica para o email ir para o spam.
Se quiser rever os sinais que continuam a funcionar na maioria dos casos, leia o nosso artigo sobre os cinco sinais de um email de phishing. Para perceber o que o SPF, o DKIM e o DMARC fazem (e o que não fazem), veja o que o Gmail e o Outlook exigem desde 2025.
O perigo maior: a «porta das traseiras»
Para o NCSC suíço, a parte mais grave vem depois de a vítima escrever a palavra-passe na página falsa. Em poucos minutos, os burlões entraram na conta e criaram uma palavra-passe de app própria. Este código, pensado para aplicações antigas, permite aceder à conta sem a verificação em dois passos. No caso relatado, os emails e os contactos da vítima continuaram a ser sincronizados para um dispositivo no estrangeiro durante algum tempo, sem que ninguém desse por isso.
A ajuda da Google diz que as palavras-passe de app são revogadas quando se muda a palavra-passe da conta. Ainda assim, o NCSC recomenda ir à secção «Palavras-passe de app» e apagar todas as entradas sem exceção, e verificar também os endereços de recuperação e as regras de reencaminhamento automático.
Como verificar se um alerta da Google é real
A regra mais segura não depende do email. A própria Google, citada pela MEGA, aconselha a ir diretamente a myaccount.google.com/notifications em caso de dúvida.
- Não clique em nada no email. Abra um separador novo e escreva
myaccount.google.com, ou use a app da Google no telemóvel. - Compare com a atividade da conta. Se o alerta fala de uma palavra-passe de app ou de um novo início de sessão que não aparece na «Atividade de segurança recente», trate-o como suspeito.
- Desconfie de texto «colado». Links, números de telefone ou números de processo no meio da frase, onde normalmente aparece o nome de um dispositivo, são o sinal típico desta técnica.
- A Google não liga. Tanto o NCSC como a Foregenix lembram que a Google não telefona aos utilizadores, sem mais, por causa da segurança da conta. Se receber uma chamada destas, desligue.
- Os logins da Google estão em
accounts.google.com. Nunca emsites.google.com, nem em documentos ou formulários.
O que fazer se já clicou ou escreveu a palavra-passe
Com base nas recomendações do NCSC e da MEGA:
- Mude a palavra-passe da conta Google a partir de
myaccount.google.com, nunca a partir do link do email. - Termine as sessões ativas e retire os dispositivos que não reconhece.
- Apague todas as palavras-passe de app e os acessos de terceiros que não criou.
- Verifique os endereços de recuperação e as regras de reencaminhamento no Gmail.
- Ative a verificação em dois passos ou, melhor ainda, chaves de acesso (passkeys), que a Google recomendou depois de um ataque semelhante em 2025.
- Mude a palavra-passe em todos os outros serviços onde usava a mesma.
- Denuncie o email no Gmail: três pontos ao lado de «Responder» e «Denunciar phishing».
Se a conta tinha dados de clientes ou de trabalhadores, avalie também se houve uma violação de dados pessoais. Explicámos os passos e o prazo de 72 horas para notificar a CNPD no artigo sobre o que fazer se lhe roubarem dados.
O que a sua empresa deve fazer esta semana
- Avise a equipa. Mostre um exemplo deste tipo de alerta e combine uma regra simples: nenhum alerta de segurança se resolve a partir do email ou por telefone.
- Reveja as contas Google da empresa. Procure palavras-passe de app esquecidas, endereços de recuperação desatualizados e reencaminhamentos que ninguém se lembra de ter criado.
- Prefira chaves de acesso. Uma passkey não se escreve numa página falsa, por isso este tipo de burla perde a maior parte da força.
Em resumo
Um email pode vir mesmo da Google e trazer uma mensagem escrita por um burlão. A defesa não está em analisar o email, mas em nunca agir a partir dele: abra a conta diretamente, desligue chamadas de «suporte» inesperadas e feche as portas das traseiras, como as palavras-passe de app.
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