Só 11,5% das empresas portuguesas usam IA: o que mostra o Radar 2026 e como a sua PME pode começar
Portugal tem 11,5% de empresas a usar IA, contra 20% na UE. O que diz o Radar 2026, o estado da linha IA nas PME e por onde começar.

Os portugueses usam cada vez mais inteligência artificial, mas as empresas portuguesas continuam atrás da Europa. Em 2025, apenas 11,5% das empresas com 10 ou mais trabalhadores usavam pelo menos uma tecnologia de IA, contra 20% na União Europeia. O retrato volta a ser notícia esta semana com o "Radar sobre a utilização e oferta de IA em Portugal 2026", da Via Analítica, noticiado pelo SAPO Tek a 26 de outubro de 2026.
Resumimos o que dizem os números, o que se passa com a linha de apoio "IA nas PME" e por onde pode começar uma pequena empresa.
Os números: Portugal a 11,5%, a Europa a 20%
Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), 11,5% das empresas usavam tecnologias de IA em 2025, mais 2,9 pontos percentuais do que em 2024. No mesmo ano, de acordo com o Eurostat, a média da União Europeia chegou aos 20,0%, mais 6,5 pontos do que os 13,5% de 2024. Os países com maior adoção foram a Dinamarca (42,0%), a Finlândia (37,8%) e a Suécia (35,0%).
Em 2023, a distância entre Portugal e a média europeia era de apenas 0,2 pontos percentuais. Em 2025, já era de 8,5 pontos: as empresas portuguesas crescem, mas mais devagar do que as europeias.
O contraste com o uso pessoal é grande. Segundo o mesmo relatório, 38,7% dos portugueses entre os 16 e os 74 anos usaram ferramentas de IA generativa em 2025, acima dos 32,7% da média europeia. Falta levar esse uso para dentro dos processos da empresa, com regras.
Mesmo no setor da informação e comunicação, onde estão as empresas tecnológicas, a taxa portuguesa (52,8%) fica abaixo da europeia (62,5%).
Para que usam a IA as empresas que já a adotaram
O INE mostra que, entre as empresas portuguesas que usam IA, as aplicações mais comuns são a análise de texto escrito (59,4%), a criação de imagens, vídeo ou som (50,9%) e a geração de texto, voz ou código (45,6%). Por áreas de negócio, destacam-se a organização de processos administrativos ou de gestão (40,8%) e o marketing ou as vendas (36,9%).
São usos próximos do dia a dia de uma PME. Reunimos exemplos concretos em 5 tarefas repetitivas que um agente de IA pode automatizar hoje.
Porque é que as empresas não avançam
O Radar aponta duas barreiras principais. Entre as empresas portuguesas que ainda não usam IA, mas ponderaram fazê-lo, 74% referem a falta de conhecimentos e 60% os custos elevados. Na União Europeia, os custos só são apontados por 38% das empresas. A falta de clareza legal e as preocupações com a proteção de dados e a privacidade também pesam na decisão.
São preocupações legítimas, mas têm resposta:
- Conhecimentos: o primeiro projeto não exige uma equipa técnica. Exige alguém na empresa que conheça bem a tarefa e tenha tempo para rever os resultados.
- Custos: um piloto pequeno, com uma única tarefa e um limite de gastos definido desde o início, permite medir o retorno antes de investir mais.
- Lei: o Regulamento Europeu da IA já tem obrigações em vigor, como a literacia em IA das equipas. Explicámos o que se aplica a uma PME em Regulamento europeu da IA: o que já se aplica a uma PME.
- Dados: definir que informação pode entrar nas ferramentas de IA, e que contas a equipa usa, resolve boa parte do risco. Veja Segurança em agentes de IA: como proteger os dados da sua empresa.
A linha "IA nas PME": muito dinheiro, mas candidaturas fechadas
Do lado do investimento, o Radar indica que a linha "IA nas PME" já aprovou 2.847 projetos, num total de 435 milhões de euros, e que cerca de 92% têm conclusão prevista para 2027 ou 2028. Segundo a Via Analítica, o marketing e as vendas aparecem em 43% dos projetos aprovados, a área documental, administrativa e financeira em 42% e o atendimento ao cliente em 38%. A própria Via Analítica lembra que são aplicações previstas, e não ainda resultados.
Para quem pesquisa agora como se candidatar, a resposta é clara: não há candidaturas abertas. Segundo o Banco Português de Fomento, as candidaturas à linha estão encerradas desde 21 de novembro de 2025. O aviso original (n.º 03/C05-i14-01/2025) tinha uma dotação de 100 milhões de euros e dava um apoio não reembolsável de 75%, até 300.000 euros por empresa, para investimentos a partir de 5 mil euros.
Em 2026 houve um segundo aviso, o n.º 07/C05-i14.01/2026, publicado a 25 de março e marcado como "Fechado" no portal Recuperar Portugal. Como explica a Open Capital, foi um aviso convite com 80 milhões de euros que não abriu candidaturas novas: financiou projetos da 2.ª fase do aviso de 2025 com mérito igual ou superior a 4,00. Até à data em que escrevemos, não foi anunciado nenhum novo aviso.
A oferta também está a crescer
Há cada vez mais empresas portuguesas a vender soluções de IA. Segundo o Radar, pelo menos 336 das 2.187 sociedades de tecnologias de informação e de investigação e desenvolvimento criadas entre janeiro e setembro de 2026 declaram oferecer produtos ou serviços de IA.
A Via Analítica ressalva que se trata de atividade declarada, e não de prova de produtos no mercado. Para quem compra, convém pedir sempre exemplos de projetos em funcionamento, saber onde ficam os dados e quem responde quando a ferramenta erra.
Por onde começar na sua empresa
Para a Via Analítica, o desafio é transformar a oferta em uso efetivo e continuado. Na prática, sugerimos cinco passos:
- Escolha uma tarefa concreta e repetitiva, como a triagem de pedidos de orçamento ou as perguntas frequentes dos clientes.
- Meça o ponto de partida: quantas vezes acontece por semana e quanto tempo leva.
- Organize a informação: preços públicos, condições, perguntas frequentes, modelos de resposta.
- Defina regras de utilização: que dados podem ser usados, quem revê as respostas e quando intervém uma pessoa. Veja o que fica com o agente e o que fica com as pessoas.
- Teste durante 30 dias e decida com números, como propomos no guia para implementar um agente de IA na sua empresa em 30 dias.
Não deixe a segurança para depois. Como mostrámos em Empresas portuguesas apostam na IA, mas esquecem a segurança, muitas empresas adotam ferramentas de IA mais depressa do que as protegem.
Em resumo
Em 2025, 11,5% das empresas portuguesas com 10 ou mais trabalhadores usavam IA, contra 20% na União Europeia, e a distância passou de 0,2 para 8,5 pontos percentuais em dois anos. A linha "IA nas PME" aprovou 2.847 projetos, mas está fechada a novas candidaturas desde 21 de novembro de 2025. Para uma PME, o caminho mais seguro é começar por uma tarefa, medir os resultados e só depois crescer.
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