Botão de livre resolução na loja online: o que a lei exige e como o pôr em WooCommerce e Shopify
O botão de livre resolução explicado: o que a directiva exige, o estado da lei portuguesa em Outubro de 2026, as coimas e como o pôr em WooCommerce e Shopify.

Desde 19 de Junho de 2026, a regra europeia diz que quem vende a consumidores por um site ou por uma aplicação deve ter na loja um botão para o cliente desistir da compra. As plataformas já o anunciam, e a pergunta certa é outra: isto já é lei em Portugal? E como se põe a funcionar no WooCommerce, no Shopify ou numa loja à medida?
No artigo sobre o que o site da sua empresa tem de mostrar por lei deixámos uma descrição curta do botão. Aqui vamos mais fundo: o que diz a directiva, em que ponto está a lei portuguesa em Outubro de 2026, o que já dá coima e como o implementar em cada tipo de loja.
De onde vem a regra
A Directiva (UE) 2023/2673, publicada no Jornal Oficial da União Europeia a 28 de Novembro de 2023, trata sobretudo dos serviços financeiros vendidos à distância. Mas acrescentou à directiva dos direitos dos consumidores (2011/83/UE) o artigo 11.º-A, e o considerando 37 é explícito: vale para todos os contratos à distância com direito de livre resolução, não só para os financeiros. Uma loja de roupa ou de vinhos está abrangida.
A directiva deu aos Estados-Membros até 19 de Dezembro de 2025 para aprovarem as leis nacionais e mandou aplicá-las a partir de 19 de Junho de 2026.
O que o botão tem de fazer
O artigo 11.º-A aplica-se a contratos feitos num site ou numa aplicação e tem quatro requisitos:
- Um rótulo inequívoco. A versão portuguesa da directiva usa a expressão "retrate-se do contrato aqui" ou uma "formulação inequívoca equivalente". Em Portugal, onde a lei fala em livre resolução, faz sentido usar algo como "Exercer o direito de livre resolução" ou "Desistir da compra aqui".
- Sempre disponível durante o prazo. A função tem de estar disponível durante todo o prazo de livre resolução e ser fácil de encontrar. O considerando 37 acrescenta que não se pode obrigar o cliente a descarregar uma aplicação se não comprou por ela, e que quem já iniciou sessão não deve ter de se identificar outra vez.
- Poucos dados. O cliente indica ou confirma o nome, os dados que identificam o contrato (o número da encomenda, por exemplo) e o meio electrónico onde quer receber a confirmação (em regra, o email).
- Confirmação e recibo. O pedido só segue depois de um segundo botão, identificado com "confirmar retratação" ou equivalente. Depois disso, a loja envia, sem demora injustificada, um aviso de recepção em suporte duradouro (o email serve) com o conteúdo do pedido e a data e hora em que foi enviado.
A directiva também mexe na informação pré-contratual: quando há direito de livre resolução, a loja tem de dizer que a função existe e onde está. Nas condições gerais e na página de devoluções, portanto, deve aparecer uma frase a apontar para o botão.
O botão não substitui o formulário de livre resolução, que continua válido, nem trata da devolução e do reembolso: só recebe e regista o pedido.
Os prazos: o que já estava na lei portuguesa
O direito em si não é novo. O Decreto-Lei n.º 24/2014, que regula os contratos à distância, já diz:
- 14 dias para desistir, sem indicar motivo. Na compra de bens, conta a partir do dia em que o cliente recebe os bens (ou o último, se vierem separados).
- 12 meses a mais se a loja não informou o cliente deste direito antes da compra. Se a informação chegar dentro desses 12 meses, os 14 dias começam a contar a partir daí.
- Reembolso em 14 dias a contar da data em que a loja é informada da desistência, incluindo os portes de envio normais, pelo mesmo meio de pagamento.
- Excepções. Não há livre resolução, entre outros casos, em bens personalizados, perecíveis, selados por higiene e abertos, ou conteúdos digitais já fornecidos com acordo expresso do cliente.
E um pormenor pouco conhecido: o n.º 4 do artigo 11.º do mesmo decreto-lei já obriga a loja que permite a livre resolução pelo site a acusar a recepção do pedido, em suporte duradouro, no prazo de 24 horas.
Em que ponto está a lei portuguesa
Numa pesquisa no Diário da República feita a 12 de Outubro de 2026, não encontrámos nenhum diploma que transponha a Directiva (UE) 2023/2673. A última alteração ao Decreto-Lei n.º 24/2014 continua a ser a Lei n.º 10/2023, de 3 de Março, e o regime português dos serviços financeiros à distância (Decreto-Lei n.º 95/2006), que a directiva manda substituir, ainda aparece como em vigor.
A Comissão Europeia confirma o atraso. A 30 de Janeiro de 2026, abriu processos por infracção contra 21 Estados-Membros, Portugal incluído, por não terem comunicado a transposição completa da directiva, e deu-lhes dois meses para responder.
O que isto significa para uma loja portuguesa:
- Ainda não há uma norma portuguesa que descreva o botão, nem uma coima específica para quem não o tem.
- A lei vai chegar. Portugal está em incumprimento e tem de transpor a directiva. O essencial já está fixado pelo artigo 11.º-A.
- Quem vende para outros países da UE deve confirmar com um jurista se as regras desses países, onde a transposição já tenha sido feita, se aplicam às suas vendas.
- Pôr o botão agora não tem desvantagem. As plataformas já o oferecem e os clientes já o vêem noutras lojas europeias.
Quem fiscaliza e o que já dá coima hoje
A fiscalização do Decreto-Lei n.º 24/2014 cabe à ASAE (à ANACOM, nalguns serviços de comunicações e postais), e as coimas seguem o regime jurídico das contra-ordenações económicas (Decreto-Lei n.º 9/2021). Não ter o botão ainda não tem coima própria, mas há infracções ligadas à livre resolução que já são contra-ordenações graves: falhar a informação pré-contratual (artigo 4.º), desrespeitar o direito de livre resolução (artigo 10.º), não acusar em 24 horas a recepção de um pedido feito pelo site (n.º 4 do artigo 11.º) e não reembolsar como manda o artigo 12.º.
Segundo o artigo 18.º desse regime, uma contra-ordenação grave custa entre 1 700 € e 3 000 € a uma microempresa, entre 4 000 € e 8 000 € a uma pequena empresa e entre 8 000 € e 16 000 € a uma média empresa.
Como implementar: WooCommerce
O WooCommerce não traz o botão de origem, mas há extensões dedicadas. Uma delas é a WebToffee EU Order Withdrawal Button for WooCommerce, que está no directório do WordPress.org (versão gratuita, com mais de 1 000 instalações activas e actualizada a 8 de Outubro de 2026) e no marketplace oficial do WooCommerce. Segundo a página do plugin:
- põe um botão nas encomendas da área de cliente e uma ligação no rodapé, e tem um shortcode para o colocar em qualquer página;
- aceita pedidos de clientes sem conta, com o número da encomenda e o email de facturação;
- tem confirmação em dois passos e envia ao cliente um email com data e hora do pedido;
- junta os pedidos num menu próprio no painel (WooCommerce > Withdrawals) e tem tradução para português de Portugal desde a versão 1.0.9.
Passos práticos: instale-o numa cópia de testes da loja, mude o texto da ligação para português ("Exercer o direito de livre resolução"), faça um pedido como cliente sem conta e confirme que o email chega com data e hora. Repare que, para clientes sem conta, o plugin envia um email de verificação antes de criar o pedido; veja se isso não acrescenta um passo que torne a desistência mais difícil do que a compra. Por fim, refira o botão nas condições gerais. Há outros plugins com nomes parecidos; veja a data da última actualização e o número de instalações.
Como implementar: Shopify
O Shopify tem uma página de ajuda sobre o tema e indica as regras de devolução e cancelamento nativas como forma de "ajudar" a cumprir. A configuração que recomenda, em Definições > Políticas, é esta:
- Activar as devoluções e cancelamentos em self-serve, com pedidos de devolução e de cancelamento.
- Pôr a janela de cancelamento até a encomenda ser expedida.
- Pôr a janela de devolução em pelo menos 14 dias, contados da entrega do último artigo, com extensão para fins-de-semana e feriados.
- Criar, em Conteúdo > Menus, uma ligação visível para a página de encomendas da conta de cliente (pode ser só nas lojas da UE).
O próprio Shopify avisa que isto não torna a loja conforme de forma automática, e não explica como trata o rótulo, a confirmação em dois passos ou o recibo com data e hora. O pedido faz-se a partir da conta do cliente: confirme que quem comprou sem conta também consegue desistir com facilidade.
Se não chegar, há apps na Shopify App Store feitas para isto, como a SEVNS EU Withdrawal Button, lançada a 8 de Junho de 2026, com formulário sem login, processo em dois passos, email de confirmação com registo da hora e português de Portugal, a partir de 7,90 dólares por mês (Outubro de 2026, ainda sem avaliações).
Como implementar: loja à medida
Numa loja à medida, o botão é uma página e pouco mais no servidor:
- Pontos de entrada. No rodapé, na área de cliente junto de cada encomenda e no email de confirmação, com o formulário já preenchido.
- Formulário curto. Nome, número da encomenda e email. Com sessão iniciada, preencha tudo e deixe só escolher os artigos.
- Dois passos. Um ecrã de revisão com o botão "Confirmar a livre resolução" e nada mais a decidir.
- Registo e recibo. Guarde o pedido com data e hora do servidor e envie logo o email com o conteúdo do pedido. É a prova de que respondeu em 24 horas.
- Prazo visível. Botão em todas as encomendas dentro do prazo; produtos excluídos tratados à parte.
- Avisos internos. Alerta para a equipa e pedido ligado à encomenda, para reembolsar dentro dos 14 dias.
Nas plataformas portuguesas, a Criar Lojas Online dos CTT, por exemplo, já tem o botão "Exercer o direito de livre resolução" na página de contactos e no rodapé, com formulário sem login e confirmação em "Confirmar a livre resolução".
Em resumo
O botão de livre resolução é uma regra europeia aplicável desde 19 de Junho de 2026, mas, em Outubro de 2026, Portugal ainda não a transpôs, e por isso ainda não há coima própria para quem não o tem. O direito aos 14 dias, o recibo em 24 horas e o reembolso em 14 dias já são lei, e as falhas nesses pontos já são contra-ordenações graves. Pôr o botão agora custa pouco: um plugin, uma configuração ou uma página e um email. Este artigo não é aconselhamento jurídico; confirme os pormenores com o seu advogado. Se quer que adaptemos a sua loja, veja o que fazemos em lojas online ou peça uma proposta. Se ainda está a começar, leia como criar uma loja online e o guia de custos, pagamentos e passos.
Fontes
- EUR-Lex: Directiva (UE) 2023/2673, que altera a Directiva 2011/83/UE (artigo 11.º-A, considerando 37, artigo 2.º) (28 de Novembro de 2023)
- Comissão Europeia: January infringements package, processos contra 21 Estados-Membros (30 de Janeiro de 2026)
- PGDL: Decreto-Lei n.º 24/2014, versão consolidada (última alteração pela Lei n.º 10/2023)
- Decreto-Lei n.º 9/2021: Regime Jurídico das Contraordenações Económicas, artigo 18.º (29 de Janeiro de 2021)
- Diário da República: pesquisa de legislação (consultado a 12 de Outubro de 2026)
- Shopify Help Center: EU right of withdrawal (2026)
- Shopify Help Center: Return and cancellation rules (2026)
- Shopify App Store: SEVNS EU Withdrawal Button (Outubro de 2026)
- WordPress.org: WebToffee EU Order Withdrawal Button for WooCommerce (versão 1.1.1, Outubro de 2026)
- WooCommerce Marketplace: WebToffee EU Order Withdrawal Button
- CTT: Direito de livre resolução na Criar Lojas Online (2026)
- Ecommerce Para Todos: Botão de revogação da UE obrigatório desde 19 de Junho de 2026 (7 de Setembro de 2026)


